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sábado, 3 de novembro de 2007

História de Bob

RELATO DO DOUTOR BOB.
CO-FUNDADOR DO A A.

Co-fundador de Alcoólicos Anônimos, nossa sociedade data do primeiro dia de sua sobriedade permanente dia dez de junho de 1935.
Até 1950, o ano de sua morte, levou a mensagem de Alcoólicos Anônimos a mais de 5.000 homens e mulheres alcoólatras, e a todos estes ele prestou seus serviços médicos sem pensar em cobrar.
Neste pródigo serviço, foi muito bem assistido pela irmã Ignácia no St. Thomas Hospital em Akron, Ohio, uma das melhores amigas que nossa sociedade conheceu.

- Nasci numa pequena aldeia de Nova Inglaterra, de umas 7.000 almas. O padrão moral, se bem me lembro, era muito mais elevado do que o normal. Nas vizinhanças vendia-se bebidas alcoólicas somente na agência de bebidas do estado, onde talvez se conseguisse meio litro se se pudesse convencer o agente que realmente precisava dele. Sem esta prova o comprador esperançoso seria obrigado a partir sem o que mais tarde cheguei a considerar a grande solução de todos os males humanos. Os homens que mandavam buscar bebida em Boston e Nova York eram muito mal vistos pela maioria da gente da cidade. A aldeia estava bem dotada de igrejas e escolas nas quais iniciei minha educação.
Meu pai era um profissional de reconhecida capacidade e tanto ele como minha mãe eram muito ativos em assuntos da Igreja. Eram consideravelmente mais infelizes que a média das pessoas.
Infelizmente eu era filho único, o que talvez tivesse gerado o egoísmo que teve um papel tão importante no desenvolvimento do meu alcoolismo.
Desde a meninice até o fim da escola secundária fui mais ou menos obrigado a ir à igreja, à escola dominical, aos serviços vespertinos, às reuniões do emprenho cristão das segundas feiras e, às reuniões de oração das quartas. Tudo isso teve o efeito de fazer-me resolver que tão logo ficasse livre do domínio dos meus pais, nunca mais atravessaria a porta de uma igreja.
Mantive essa resolução, inflexivelmente, durante os 40 anos seguintes, salvo quando as circunstâncias me indicavam que seria mais sábio não estar ausente.
Depois da escola secundária vieram 4 anos numa das melhores universidades do País, onde beber parecia ser uma das principais atividades extracurriculares. Quase todos o faziam. Eu o fazia cada vez mais e me divertia bastante sem sofrer grandes desgostos físicos ou financeiros. Parecia ter a capacidade de voltar ao normal da manhã seguinte, melhor do que a maioria dos meus colegas que haviam sido amaldiçoados (ou, talvez, abençoados) com muitas ressacas. Jamais na vida tenho tido uma dor de cabeça, o que me leva a pensar ser dedicada a fazer as coisas que eu queria fazer, sem consideração pelos direitos, desejos ou privilégios de nenhuma outra pessoa; um estado demente que predominou cada vez mais com o passar dos anos. Diplomei-me com louvor aos olhos dos meus companheiros de bebida, embora não na opinião dos professores.
Passei os 3 anos seguintes em Boston, Chicago, e Montreal, empregado por uma grande firma manufatureira. Vendia suprimentos ferroviários, motores à gás de todo tipo e muitos outros artigos de ferragem pesada. Durante esses anos bebi tudo quanto minhas finanças permitiam, ainda sem pagar tributo muito grande, embora começasse a acordar um pouco trêmulo, às vezes. Durante os 3 anos somente perdi meio dia de serviço.
Parti, então, para o estudo da medicina, entrando para uma das maiores universidades do País. Ali comecei a beber com muito mais seriedade do que antes. Por causa de minha enorme capacidade para beber cerveja, elegeram-me membro de uma das sociedades de bebedores, na qual passei a ser uma das principais figuras. Muitas manhãs partia para as aulas e, mesmo que bem preparado, voltava para o dormitório por causa de minhas tremedeiras, não me atrevendo a entrar na sala de aulas por medo de fazer um papelão se fosse argüido pelo professor.
Isto foi de mal a pior até a primavera do segundo ano quando, após uma prolongada bebedeira, decidi que não poderia completar o curso e saí, viajando para o sul, para passar um mês na fazenda de um amigo. Quando saí de minha confusão mental decidi que era absurdo abandonar a escola e que seria melhor voltar a continuar com meu trabalho voltando à escola, descobri que a faculdade tinha outras idéias sobre o assunto. Após muita discussão, permitiram-me voltar e fazer os exames. Fui promovido com boas notas. Mesmo assim, a faculdade estava descontente comigo e decidiram continuar sem minha presença. Depois de muitas conversas penosas, concordaram em dar-me os certificados e fui transferido para uma outra universidade, das melhores, onde comecei o terceiro ano nesse outono.
Ali as bebedeiras tornaram-se tão ruins que os rapazes que conviviam comigo sentiram-se na obrigação de entrar em contato com meu pai, que fez uma longa viagem numa tentativa vã de endireitar-me. Teve pouco efeito, porém, porque continuei a beber, minha passando a tomar bebida mais forte do que nos anos anteriores.
Chegando à época dos exames finais participei de uma bebedeira especialmente desagradável. Quando entrei para fazer os exames minha mão tremia de tal forma que não conseguia segurar um lápis. Entreguei pelo menos três folhas em branco. Como castigo, tive que repetir o ano e fazia-me necessário permanecer completamente sóbrio se quisesse me diplomar. Foi o que fiz, e acabei satisfazendo a faculdade, tanto em comportamento quanto em aplicação.
Aliás, conduzi-me tão bem que consegui um cobiçado estágio numa cidade do oeste, onde consegui dois anos. Durante estes dois anos mantiveram-me tão ocupado que quase não saia do hospital. Consequentemente, não me era possível meter-me em apuros.
Terminados esses dois anos, abri um consultório no centro da cidade. Tinha algum dinheiro; sobrava-me tempo, e padecia de problema do estômago. Logo descobri que um par de tragos aliviava os distúrbios gástricos, pelo menos por algumas horas de cada vez. Portanto, não foi difícil voltar a minha excessiva indulgência anterior.
A esta altura estava começando a sofrer fisicamente e, na esperança de conseguir alívio, internei-me voluntariamente pelo menos uma dúzia de vezes num dos sanatórios locais. Agora encontrava-me entre a cruz e a espada, pois, sem bebia, meu estômago me torturava e, se bebia, torturavam-me os nervos. Após três anos daquilo encontrei-me de novo no hospital local onde tentaram me ajudar, mas eu conseguia com que meus amigos me trouxessem um litro clandestinamente, ou então roubava o álcool que encontrava no prédio, como resultado piorei rapidamente.
Finalmente meu pai teve que mandar um médico de minha própria aldeia, que conseguiu, de alguma maneira, levar-me de volta para lá. Fiquei de cama dois meses antes de poder sair de casa. Permaneci na aldeia alguns meses mais e então, voltei a reassumir minha clínica. Acredito que devo ter estado apavorado pelo que havia acontecido, ou pelo médico ou provavelmente por ambos, pois não voltei a tocar numa bebida de álcool até que foi decretada a lei seca.
Com a promulgação desta lei senti-me salvo. Sabia que todo mundo compraria e estocaria algumas garrafas ou caixas de bebida, mas que logo não haveria mais. portanto, não faria diferença se bebesse um pouco agora. Na época não tinha conhecimento do abastecimento quase se limites que o governo poria à disposição dos médicos. Nem conhecia o fabricante de bebida ilícita que logo apareceu no horizonte. No início bebi com moderação, porém demorei relativamente pouco tempo para voltar aos velhos hábitos que haviam sido tão desastrosos anteriormente.
Durante os anos seguintes desenvolvi duas fobias pronunciadas. Uma era o medo de não poder dormir e a outra era o medo de ficar sem bebida. Mn sendo que homem rico, sabia que, se não permanecesse sóbrio o tempo suficiente para ganhar dinheiro, acabaria ficando sem bebida. A maior parte do tempo, portanto, não tomava essa bebida, que tanto almejava pela manhã. Em vez disso, tomava grandes doses de sedativos para acalmar as tremedeiras, que me causavam muita aflição. Em algumas ocasiões entregava-me ao trago da manhã, mas quando o fazia não se passavam muitas horas antes que eu estivesse inteiramente inutilizado para trabalhar. Isto diminuía as possibilidades de levar bebida para casa ao anoitecer, o que, por sua vez, significava uma longa noite sem poder dormir, seguida por uma manhã de tremedeiras insuportáveis. Durante os quinze anos que se seguiram tive a sensatez de nunca aparecer no hospital se havia estado bebendo, e raramente recebia pacientes nessa condição. Às vezes escondia-me num dos clubes dos quais era membro e, em outras ocasiões costumava registrar-me num hotel usando um nome fictício. Contudo, meus amigos geralmente me encontravam e ia para casa se me prometiam que não seria repreendido.
Se minha esposa planejava sair à tarde, conseguia um bom abastecimento de bebida, levando-o para casa e o escondia no depósito de carvão, no quarador de roupa, acima dos umbrais das portas e nas vigas do porão. Utilizava-me de velhos baús, cômodos e até da lata do lixo. Nunca usei a caixa de descarga do banheiro porque me parecia muito óbvio. Descobri mais tarde que minha mulher a revistava freqüentemente. Costumava por ampolas de álcool de meio litro, dentro de luvas. Meu fornecedor escondia álcool na escada atrás da casa, onde eu podia alcançar convenientemente. As vezes o levava para casa nos bolsos, porém eram inspecionados e tornou-se perigoso demais. Costumava pôr álcool em frascos de 250 ml e colocá-los nas minhas meias. Isto funcionou bem até que levei minha esposa para ver um filme com Wallace Beery, no qual ele fazia a mesma coisa!
Não tomarei o espaço para relatar todas minhas experiências nos hospitais e sanatórios.
Durante todo este tempo nossos amigos acabaram por condenar-nos ao ostracismo. Não nos convidavam a sua casas porque fatalmente me embriagava, e minha esposa não os convidava á nossa pela mesma razão. Minha fobia de não dormir obrigava-me a embebedar-me toda noite; porém, para conseguir mais bebida para a próxima noite, precisava permanecer sóbrio durante o dia, pelo menos até as 16 horas. Essa rotina continuou com poucas interrupções durante 17 anos. Foi realmente um pesadelo horrível; ganhando dinheiro, comprando bebida, levando-a para casa, embriagando-me; as tremedeiras de manhã, as grandes doses de calmantes para poder ganhar mais dinheiro, e assim por diante, sem parar. Costumava prometer á minha esposa, meus amigos e meus filhos que nunca beberia – promessa que raramente me mantinham sóbrio até o fim do mesmo dia, embora fosse sincero quando as fazia.
Em benefício dos que gostam de experiências, deveria mencionar a chamada experiência da cerveja. Quando a cerveja voltou a ser legal, achei que estava seguro. Eu conseguia beber cerveja à vontade. aquilo não fazia mal; ninguém se embebedava com cerveja. Portanto, com a permissão de minha esposa, enchi o porão com garrafas de cerveja. Em pouco tempo estava bebendo uma caixa e meia por dia. ganhei 15 kg aproximadamente em dois meses; parecia um porco e sentia-me incômodo por falta de ar. Então ocorreu-me que quando estrava todo encharcado de cerveja não era possível saber-se o que se havia bebido. Assim, comecei fortificar minhas cervejas com álcool puro. Logicamente, os resultados foram dos piores, terminando assim a experiência da cerveja.
Mais ou menos na época da experiência da cerveja comecei a sair com um grupo de gente que me atraía por me parecerem saudáveis, estáveis e felizes. Falaram inteiramente livres de qualquer embaraço, coisa que eu jamais havia podido fazer. Davam-me a impressão de estarem sempre à vontade e sempre com boa saúde. De minha parte eu vivia constrangido quase o tempo todo, minha saúde era precária e sentia-me inteiramente miserável. Sentia que tinham algo que eu não tinha, algo que me faria bem obter. Aprendi que era algo de natureza espiritual, o que não me trazia grande interesse, mas achei que mal não me faria. Dediquei muito tempo e estudo ao assunto durante os seguintes dois anos e meio. Mesmo assim embriagava-me toda noite. Li tudo que me caísse nas mãos e falava com toda pessoa que parecia conhecer algo a respeito.
Minha esposa interessou-se profundamente e foi o interesse dela que sustentou o meu, embora em momento algum me passasse pela cabeça que poderia ser a resposta para meu problema de bebida. Jamais compreenderei como minha esposa conseguiu manter sua fé e coragem durante todos esses anos, porém o fez. Sem não o tivesse feito, tenho certeza de que teria morrido há muito tempo. Por alguma razão, nós alcoólatras parecemos ter o Dom de escolher as melhores mulheres do mundo. Não posso explicar porque elas precisam ser submetidas às torturas que infligimos a elas.
Foi nessa época que uma senhora veio fazer uma visita à minha esposa, um Sábado à tarde, dizendo que queria que eu fosse essa noite a sua casa para conhecer um amigo dela que talvez me poderia ajudar. Era véspera do dia das mães e havia chegado em casa bêbado, carregando uma enorme planta. Deixei a planta na mesa, subi as escadas e desmaiei. No dia seguinte ela telefonou de novo. querendo ser gentil, embora me sentisse bastante mal, disse: “vamos fazer a visita”, e extraí de minha esposa a promessa de que não demoraríamos mais de 15 minutos.
Entramos na casa exatamente às 16 horas e eram 23 quando saímos. Tive duas conversas mais breves com este homem, mais tarde, e parei de beber repentinamente. Este período de abstenção durou mais ou menos três semanas. Então viajei para Atlantic City para assistir um congresso de vários dias de uma sociedade nacional à qual pertencia. Bebi todo o scotch que havia no trem e comprei vários litros a caminho do hotel. Isso foi num Domingo. Embriaguei-me essa noite, permaneci sóbrio na segunda-feira até depois do jantar e então empreendi embebedar-me novamente. Bebi o que me atrevi a beber no bar e fui para meu quarto para terminar a tarefa. Na terça-feira comecei de manhã, chegando a estar bastante bêbado antes do meio dia. para não desgraçar-me, saí do hotel. Comprei mais bebida rumo à estação ferroviária. Precisei esperar algum tempo pelo trem. Não me lembro de mais nada até acordar na casa de um amigo numa cidade vizinha perto da mas esta boa gente telefonou para minha esposa, que mandou meu novo amigo procurar-me. Veio e levou-me para casa e para a cama. Deu-me alguns drinkes essa noite e uma garrafa de cerveja no dia seguinte.
Isso foi no dia 10 de junho de 1935, e foi meu último trago. Ao escrever isso, já se passaram oito anos.
A pergunta que naturalmente poderia vir a sua mente seria: “que foi que fez ou disse o homem que era diferente do que havia feito ou dito os demais?” É preciso lembrar que eu havia lido muito e havia conversado com toda pessoa que sabia, ou pensava saber, algo a respeito do alcoolismo. Porém, este era um homem que havia passado por muitos anos de terríveis bebedeiras, que havia vivido quase todas as experiências de bêbado conhecidas, mas que havia vivido quase todas as experiências de bêbado conhecidas, mas que havia sido curado justamente pelos meios que eu havia tentado a respeito do alcoolismo que indubitavelmente me ajudaram, ou seja, pelos meios espirituais.
De muito menor importância foi o fato de ter sido ele o primeiro ser humano com o qual havia conversado, que sabia das coisas que dizia sobre o alcoolismo pela própria experiência vivida. Em outras palavras, falava a minha linguagem. Conhecia todas as respostas, e certamente não por havê-las aprendido num livro.
É, certamente uma bênção maravilhosa ser libertado da terrível maldição que me afligia. Minha saúde está boa e recuperei meu respeito próprio e o respeito de meus colegas. A vida no meu lar é ideal e meus negócios correm tão bem quanto se poderia esperar nestes tempos incertos.
Passo muito tempo transmitindo o que tenho aprendido aos outros que queiram e precisam bastante disso.
Faço-o por quatro razões:
1. Sentido de obrigação
2. É um prazer
3. Porque ao fazê-lo estou pagando minha dívida ao homem que gastou seu tempo a transmiti-la a mim.
4. Porque cada vez que o faço estou me assegurando um pouco mais contra a possibilidade de uma recaída.

Ao contrário da maioria de nós, não diminuiu muito minha compulsão para a bebida durante os primeiros 2 anos e meio de abstenção. Estava comigo quase que constantemente. Contudo, em nenhum momento tenho estado próximo a ceder. Antes me transtornava muito quando via meus amigos beberem e sabia que eu não podia. Mas me eduquei a crer que, embora houvesse tido o mesmo privilégio, havia abusado de tal maneira dele que me foi retirado. Portanto, não cabe queixar-me. Afinal de contas, jamais caíram em cima de mim forçando a bebida pela minha garganta.
Se você achar que é um ateu, um agnóstico, um cético ou se tiver alguma outra forma de orgulho intelectual que não o permita aceitar o que está neste relato, sinto pena de você. Se ainda achar que é suficientemente poderoso para ganhar no jogo da vida, sozinho, é assunto seu. Porém, se realmente desejar abandonar a bebida de uma vez para sempre, e sinceramente achar que precisa de alguma ajuda, sabemos que temos uma solução para você. Nunca falha, se dedicar ao nosso programa a metade do entusiasmo que você costumava dedicar à procura da próxima bebida.
Seu Pai divino jamais o decepcionará!

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