ESPIRITUALIDADE, DOZE PASSOS, REFLEXÕES DIÁRIAS, TEMAS SÔBRE DEPENDÊNCIA QUÍMICA

espiritualidade, dependência química, Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos, Alateen, Alanon, saúde física e mental, lazer, curiosidades, doze passos, passagens da bíblia, notícias, clínicas de recuperação. Espero com essas matérias, estar colaborando com alguém, em algum lugar, em algum momento de sua vida.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Reflexões Diárias

Sua vida foi dada a você, principalmente com o propósito de educar sua alma. Esta vida que vivemos é mais para a alma do que para o corpo. Escolhemos frequentemente o modo de vida que convém mais ao corpo, não o que convém tanto à alma quanto ao corpo. Aceite essa crença, e o resultado será um maravilhoso modelo de caráter. Se você rejeitá-la, o propósito de Deus para sua vida será frustrado, e seu progresso espiritual será retardado. Sua alma está sendo educada pelo bem que você escolheu. Assim, o propósito de sua vida está sendo cumprido.
A autoanálise é o meio pelo qual trazemos uma nova visão, ação e graça para influir no lado escuro e negativo de nosso ser. Com ela vem o desenvolvimento daquele tipo de humildade, que nos permite receber a ajuda de Deus. descobrimos que pouco a pouco vamos nos despojando da vida antiga – a vida que não funcionou – por uma nova vida que pode e funcionar sob quaisquer condições.
Foi me dado um indulto diário, que depende de minha condição espiritual, desde que eu procure o progresso e não a perfeição. Para me tornar pronto para mudar, eu pratico a boa vontade, abrindo-me às possibilidades de mudança.
Se percebo que existem defeito de caráter que me atrapalham a mim e aos outros, em me torno pronto, meditando e recebendo orientação.
Para soltar-me e deixar Deus agir, preciso somente entregar meus velhos caminhos para Ele; não mais lutar nem tentar controlar, mas simplesmente acreditar que com a ajuda de Deus estou mudando, e afirmando isto eu me torno pronto. Esvazio-me para me encher de percebimento, luz e amor, e estou pronto para encarar cada dia com esperança.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Admitir a derrota completa

Quase ninguém se dispõe a admitir a derrota completa; os instintos naturais gritam contra essa ideia. O álcool nos esvazia de toda autossuficiência e toda vontade de resistir às suas exigências. Só conseguimos pensar nele desde o acordar até o “desmaiar”, e não percebemos nossa falência total como seres humanos. O álcool, além de sua propriedade viciante, possui também um efeito psicológico que modifica o pensamento e o raciocínio. Uma dose pode mudar o processo mental de um alcoólico, de modo que ele acha que pode aguentar outra, outra e outra... Para ele, viver sem o álcool é o mesmo que não ter vida. Uma vez ingerida a primeira dose, a compulsão se desencadeia. Soberba, avareza, luxúria, inveja, ira, gula, preguiça, manipulação emocional, negação, justificativas, autopiedade e racionalizações, se tornaram para o alcoólatra como o ar que respiram. São três as falências totais a que são submetidos os alcoólicos: “física”, o organismo passa a rejeitar o álcool; o alcoólatra tenta parar ou diminuir a quantidade mais daí, o corpo passa a exigi-lo através dos sintomas da crise de abstinência esse então, ingere o álcool para poder superar as dores desse sintoma, em doses maiores ainda, virando dessa forma um ciclo vicioso que se repete diariamente. “Mental”, é a obsessão, pensamentos ininterruptos de como vamos usar mais álcool, mesmo que isso signifique manipular pessoas, roubar, mentir, adiar um compromisso etc. “Espiritual”, a parte espiritual da doença é o total egocentrismo, o alcoólatra passa por cima de amigos, responsabilidades, pai, mãe, esposa, trabalho ou qualquer um que tente de alguma forma, impedir seu desejo incontrolável de usar mais álcool. A palavra “admitir” no primeiro passo é insuficiente, e ele vai além da palavra “aceitar”. Um fato deve ser observado, ou seja, a necessidade de distinguir entre submissão e rendição. No primeiro caso, um indivíduo aceita a realidade consciente, mas não no subconsciente. Ele aceita como fato pratico que momentaneamente não pode derrotar a realidade, mas espera que um dia vá vencer, o que implica a não-aceitação real e presença de tensão. Por outro lado, quando um indivíduo se rende, a habilidade de aceitar a realidade funciona num nível inconsciente e a tensão desaparece. O ato de rendição é uma ocorrência inconsciente, não provocada pelo paciente, mesmo que ele assim o deseje. Uma pessoa não pode simplesmente declarar que aceita qualquer coisa – senão a aceitação não é total, mas só da boca para fora. Existem palavras que descrevem essa meia aceitação, como: submissão, resignação, cessão, complacência, reconhecimento, concessão e assim por diante. O importante além de admitir, é se render ao fato de que somos completamente impotentes perante o tirano “Rei-Álcool”. No primeiro gole, ele já começa a nos empurrar para o fundo-do-poço. E de lá só sairemos quando nos prontificarmos a aceitar e escutar, como os que se encontram à beira da morte, as palavras de tantos outros companheiros que, com certeza, já passaram por esse caminho de destruição, e através de Alcoólicos Anônimos conseguiram se manter em recuperação. Devemos nos prontificar a fazer qualquer coisa que nos livre da obsessão impiedosa, e a primeira delas, é rendermo-nos totalmente e nos conscientizar da nossa impotência perante o álcool. Talvez não sejamos culpados pela nossa doença, mas certamente somos responsáveis por mantê-la estacionária.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Reflexões Sobre o Primeiro Passo

O primeiro passo é a admissão da nossa derrota perante nós mesmos. Temos uma doença progressiva, incurável e de determinação fatal e, se continuarmos orgulhosos, poderemos ficar completamente insanos ou perder nossas próprias vidas.
Se analisarmos tudo o que perdemos, as pessoas que magoamos, as justificativas e as racionalizações que demos a nós mesmos e os absurdos que racionalizamos, veremos que, se não tomarmos alguma decisão em relação a nossas vidas, elas tomarão uma decisão em relação a nós. Todos ou quase todos que queremos bem estão profundamente magoados com nossas atitudes e manipulações. Muitos de nós chegamos a um estado de desespero, em que não conseguem mais usar drogas e ao mesmo tempo não conseguem viver sem elas. O fundo do poço é diferente para cada um mas, se não perdermos o emprego, a namorada, os estudos, ou não formos para a cadeia não significa que temos qualidade de vida ou que podemos nos controlar. Aceitação social, não significa recuperação. Tudo na nossa vida se relaciona com as drogas e ainda assim insistimos em negar os fatos. Não somos impotentes perante as drogas apenas, mas também nos tornamos impotentes, perante nossos defeitos de caráter. Coisas horríveis no ser humano como soberba, avareza, luxúria, inveja, ira, gula (compulsão), preguiça, manipulação emocional, negação, justificativas, autopiedade e racionalizações tornaram-se para nós como o ar que respiramos.
A doença da adicção é composta por três partes distintas, porém unidas entre si: Física – uma vez ingerida a primeira dose, a compulsão se desencadeia e não paramos mais de consumir drogas. Mental – é a obsessão de consumir drogas. Só conseguimos pensar nisso e na forma de obtê-la não importando se tivermos que roubar ou matar. O que vale é consegui-la. Espiritual – é o total egocentrismo, passamos por cima de amigos, responsabilidades, pai, mãe, esposa, enfim qualquer um que tente impedir nosso desejo incontrolável de usar mais drogas.
Desenvolvemos tanto nossos defeitos de caráter que nos tornamos pessoas super egocêntricas. Se não trabalharmos nossos defeitos de caráter por meio dos princípios contidos nos doze passos, voltaremos a usar drogas. A recaída é sempre pior, não importa quanto tempo demore, sempre voltamos ao fundo do poço. Alguns, depois de terem experimentado uma recaída, ainda conseguem voltar para o programa, outros, a maioria, acabam presos ou morrem.
Muitas vezes fazemos o que não queremos, o que sugere que algo em nós possui um poder que nos desvia de nossas melhores intenções. São os defeitos de caráter.
Após admitirmos nossa impotência perante as drogas, nossos defeitos de caráter e o descontrole de nossas vidas, nos é apresentado o princípio espiritual do primeiro passo, a rendição.
Render-nos não significa ser covarde, pelo contrário é preciso muita coragem, humildade e mente aberta para aceitar que nossas melhores idéias e atitudes quase nos mataram.
Ao render-nos, a liberdade de podermos honestamente reavaliar nossos conceitos nos proporciona a sensação de que pela primeira vez na vida somos livres de verdade. Quando chegamos a esse ponto, parece que começamos a enxergar quem realmente somos, quem realmente são nossos amigos e que talvez nossos familiares só queiram nos ajudar.
Felizmente, chegamos até aqui. E agora? Como viveremos daqui para frente?
Precisamos nos lembrar de viver um dia de cada vez. Não resolveremos todos os problemas que causamos em nossas vidas em um dia. 
Para levantar uma nova casa é preciso demolir a antiga; para nascer uma nova maneira de viver, é preciso que a antiga morra.
Não podemos nos enganar, precisamos mudar nossos hábitos, deixar de frequentar certos lugares e nos desligar de muitas pessoas, sob pena de não o fazendo, voltarmos a usar drogas.
Este é um programa de total abstinência não só da droga de nossa preferência, mas também de qualquer uma que nos altere o humor. Por isso, haja o que houver, não use drogas. A primeira dose desencadeia a compulsão.
Se não mudarmos nossa antiga maneira de ser, pensar e agir, não teremos sucesso em nossa recuperação. É preciso que antigas ideias desapareçam para que novas possam florescer. Em copo cheio não cabe mais água, é preciso esvaziá-lo primeiro.
Temos grande facilidade de nos esquecer dos “maus momentos” relacionados ao uso de drogas. Nossa tendência é lembrar apenas das sensações de prazer que tivemos, a isso chamamos memória eufórica.
Os dependentes químicos temem o desconhecido e agarram-se ao que já conhecem. Infelizmente o que conhecemos até aqui não nos fez muito bem.
Tememos procurar emprego, relacionar com novas pessoas, conhecer outros lugares e abrirmos a mente para novas idéias. Por outro lado, não tememos usar drogas, andar em locais de risco, roubar, mentir, manipular e andar com pessoas perigosas.
Essa insanidade é uma característica dos adictos. Muda um pouquinho de um para outro, porém, as histórias são bem parecidas no final.
A rendição total, sem reservas, ou meias idéias, é a chave para abrirmos a porta da recuperação.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Breve Entrevista Sobre Terceiro Passo


Entrevistado: (anônimo) membro de AA. (autorizou a divulgação)
Pergunta: Qual é sua visão da importância do terceiro passo?
- Nos primeiros dois passos estivemos refletindo. Vimos que éramos impotentes perante o álcool, mas também percebemos que alguma espécie de fé, mesmo que fosse somente em Alcoólicos Anônimos, estava ao alcance de qualquer um. Essas conclusões não requereram ação; requereram apenas aceitação. Através de ação conseguimos interromper a vontade própria que sempre impediu a entrada de Deus – ou, se preferir, de um Poder Superior – em nossas vidas. 
Pergunta: Podemos ter fé, mas manter o Poder Superior fora de nossas vidas. Como deixá-lo entrar? Como entregar a vontade e a própria vida aos cuidados do Poder Superior que se pensa possa existir? 
- O passo inicial é a boa-vontade e se libertar do egoísmo. Saber que quanto mais nos dispomos a depender de um Poder Superior, mais independentes nos tornamos. A dependência ao Poder Superior, como se pratica em Alcoólicos Anônimos, realmente é um meio de ganhar a verdadeira independência do espírito. Na vida cotidiana, é alarmante descobrir o quanto somos realmente dependentes e quão inconscientes somos dessa dependência. Toda casa moderna tem fios elétricos que levam força e luz ao seu interior. Ficamos encantados com essa dependência, nossa maior esperança é que nada possa a vir a interromper o suprimento da corrente. Aceitando nossa dependência dessa maravilha da ciência, descobrimos que somos mais independentes pessoalmente. E não somente somos independentes como também nos sentimos mais confortáveis e seguros. A força corre justamente para onde ela é necessária silenciosa e confortavelmente, a eletricidade – essa estranha energia que tão poucas pessoas compreendem – supre nossas necessidades mais simples, e as mais desesperadas também. Porém, no momento em que entra em jogo nossa independência mental e emocional, como nos comportamos diferentemente! 
Pergunta: Mantemos uma filosofia valente, na qual cada um de nós faz o papel de Deus, para nós soa muito bem, mas será que funciona mesmo? 
- Uma boa olhada no espelho servirá de resposta para qualquer alcoólico. A auto-suficiência é uma filosofia que não está dando certo e o final é a única ruína. Já sofremos o bastante e é hora de procurar os Alcoólicos Anônimos. Alguns alcoólicos rebeldes concluem que qualquer tipo de dependência é intoleravelmente prejudicial. Mas a dependência de um grupo de Alcoólicos Anônimos ou de um Poder Superior jamais produziu qualquer efeito pernicioso.  
Pergunta: Como faria um indivíduo de boa disposição para seguir entregando sua vontade e sua vida aos cuidados do Poder Superior?
- Não é só livrar-se da dependência do álcool, mas também arrumar toda a bagunça moral, espiritual, física e psíquica que o álcool causou. Nada poderá ser feito apenas com a sua coragem e a vontade desassistida. Certamente, chegou a hora de depender de alguém ou alguma coisa. Ao início, esse “alguém” provavelmente será seu amigo mais próximo em Alcoólicos Anônimos. A vontade humana de nada serve. Além do álcool existem muitos outros problemas que também não se vencem apenas com a força de vontade. É preciso haver boa disposição e um ato de vontade própria, um esforço pessoal contínuo para se adaptar aos princípios dos doze passos e, assim se espera, à vontade de Deus. É quando tentamos adaptar a nossa vontade à de Deus que começamos a usá-la corretamente. Para todos nós esta foi uma revelação maravilhosa. Todo nosso problema resultou do abuso da vontade. Havíamos tentado atacar nossos problemas com ela, ao invés de modificá-la, para que estivesse de acordo com a vontade de Deus para conosco. O terceiro passo abre as portas para todos os doze passos. Cada vez que aparecer um momento de indecisão ou de distúrbio emocional, podemos fazer uma pausa, pedir silêncio, e dizer simplesmente: “Concedei-me Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir uma das outras”.

quarta-feira, 15 de março de 2017

A importância de AA na recuperação

Quem é Um Adicto? A maioria de nós não precisa pensar duas vezes sobre esta pergunta. Nós sabemos! Toda a nossa vida e nossos pensamentos estavam centrados em drogas, de uma forma ou de outra obtendo, usando e encontrando maneiras e meios de conseguir mais. Vivíamos para usar e usávamos para viver. Um adicto é simplesmente um homem ou uma mulher cuja vida é controlada pelas drogas. Estamos nas garras de uma doença progressiva, que termina sempre da mesma maneira: prisões, instituições e morte. Aqueles de nós que encontraram o programa de Alcoólicos Anônimos toma consciência de que a adicção é uma doença que envolve mais que o uso de drogas. Talvez a doença já estivesse presente, antes mesmo do uso pela primeira vez. A maioria negava a doença. Focava o parar de usar, não o uso. É uma doença que se manifesta de maneiras anti-sociais, e que torna difícil a detecção, o diagnóstico e o tratamento. Isolávamos-nos, a não ser quando usávamos ou ainda: hostis, ressentidos, egocêntricos e egoístas. Apesar de que usar e abusar era bom, as coisas que fazíamos refletiam nosso desespero. Para continuar a usar, manipulávamos as pessoas, mentíamos, roubávamos, trapaceávamos e por fim nos vendemos. O fracasso e o medo nos invadiam. Usávamos tentando encontrar uma fórmula mágica para resolver nossos problemas. Mas, sem perceber que éramos nós mesmos. Sentíamos-nos mal, as drogas haviam deixado de fazer nos sentirmos bem. Sentíamos orgulho do comportamento, às vezes ilegal e sempre bizarro. Mas esquecíamos nosso isolamento, medo e autopiedade. Evitávamos a realidade da adicção. Ficamos incapazes de amar, nosso viver baixou a um nível animal, o espírito em pedaços, nem nos sentíamos humanos. Não conseguíamos mais lidar com o dia-a-dia e muitos se viram entrando e saindo de instituições. Existia uma coisa errada conosco; queríamos uma saída fácil. Pensávamos em suicídio, muitas vezes até tentamos, sem conseguir e nos sentíamos então, mais inúteis. Estávamos presos à ilusão do “e se”, “se apenas” e “só mais uma vez”. Procurávamos ajuda para aplacar nossa dor, uma vez recuperados fisicamente voltávamos ao uso. Não temos controle sobre o uso, a droga nos subjuga. Porém, pode ser detida, apesar de incurável. Precisamos aceitar que, somos alérgicos a drogas, com honestidade e sem reservas. A medicina não pode curar nossa doença. O que nos faz adictos, não é a quantidade que usamos, mas, sim, nossa reação. Certas coisas foram acontecendo enquanto usávamos: esquecemos como eram as coisas antes do uso, dos comportamentos sociais, como se trabalha, se brinca, esquecemos ainda de expressar e demonstrar interesse pelos outros. Esquecemos como sentir. Vivíamos em outro mundo quando usávamos. Experimentávamos curtos períodos de realidade e de autoconsciência. Finalmente éramos duas pessoas, e não uma – o médico e o monstro. Por fim o médico morreu e o monstro assumiu. Talvez tenhamos tentado moderar, substituir ou, até mesmo, parar de usar, mas passamos de uma fase inicial de sucesso e bem-estar emocional para uma completa falência espiritual, mental e física. Alguns de nós podem passar o resto da vida numa prisão, morrer devido ao ambiente que cerca as “boquetas”, num assalto para conseguir a droga, inúmeras são as situações de morte, não decorrentes do uso e sim do ambiente e pessoas que a cercam. Chegamos ao fundo-do-poço (ou seria fundo da fossa – no fundo-do-poço ainda podemos encontrar água limpa). Ficou difícil negar nossa adicção quando os problemas saltavam aos nossos olhos. Motivamos-nos então, a procurar ajuda no último estágio. Lamentávamos o passado, temíamos o futuro e não tínhamos entusiasmo pelo presente. A adicção nos escravizava. Éramos prisioneiros da nossa própria mente e condenados pela nossa própria culpa. A adicção é uma doença crônica, progressiva e fatal. No entanto, é tratável e estacionária. Ótimo então, o que nos interessa é a recuperação. Começamos nosso tratamento, parando de usar. As pessoas em Alcoólicos Anônimos disseram-nos que eram adictos em recuperação, que tinham aprendido a viver sem drogas. Sem eles tinham conseguido, nós também conseguiríamos. Através da abstinência e prática dos doze passos de Alcoólicos Anônimos, nossas vidas tornaram-se úteis. Compreendemos que nunca estaremos curados e que conviveremos com a doença pelo resto de nossas vidas. Temos uma doença, mas nós nos recuperamos. A cada dia é-nos dada uma nova oportunidade. Em Alcoólicos Anônimos deixamos novas ideias fluírem dentro de nós. Fazemos perguntas. Partilhamos o que aprendemos sobre a vida sem drogas; vemos claramente, que não importa o porquê, os doze passos funcionam. Aprendemos princípios espirituais como rendição, humildade e serviço. Experimentamos que o relacionamento com o Poder Superior, corrige defeitos de caráter e nos leva a ajudar aos outros. Alcoólicos Anônimos não se interessa no que ou quanto você usou, quais era os seus contatos, no que fez no passado, quanto você tem ou deixa de ter; só interessa aos Alcoólicos Anônimos o que você quer fazer pela sua recuperação e como ajudá-lo. Antes de chegarmos á irmandade de Alcoólicos Anônimos, não podíamos controlas nossas próprias vidas. Não podíamos viver e apreciar a vida como as outras pessoas. Tínhamos que ter algo diferente e pensamos que havíamos encontrado isso nas drogas. Colocamos o uso de drogas acima do bem-estar de nossas famílias, esposas, maridos e filhos. Tínhamos que ter droga a qualquer custo. Prejudicamos muitas pessoas, mas, principalmente, prejudicamos a nós mesmos. Através da nossa inabilidade de aceitar responsabilidades pessoais, estávamos realmente criando nossos próprios problemas. Parecíamos incapazes de encarar a vida como ela é. A maioria de nós percebeu que, em nossa adicção, estávamos lentamente cometendo suicídio, mas a adicção é um inimigo tão traiçoeiro da vida, que tínhamos perdido o poder de fazer qualquer coisa. Em Alcoólicos Anônimos descobrimos que somos doentes, sem cura; mas que em algum ponto pode ser detida, e a recuperação é possível. Frequentando Alcoólicos Anônimos descobrimos três realidades perturbadoras: 1) Somos impotentes perante a adicção e nossas vidas estão incontroláveis. 2) Embora não sejamos responsáveis por nossa doença, somos responsáveis pela nossa recuperação. 3) Não podemos mais culpar pessoas, lugares e coisas pela nossa adicção. Temos que encarar nossos problemas e nossos sentimentos. Concentramos-nos em recuperação e sentimentos, não no que fizemos no passado. Velhos amigos, lugares e ideias são ameaças e precisam ser removidas. Que uma mudança na nossa maneira de ser! É uma grande dádiva nos sentirmos humanos novamente. O programa nos convenceu de que nós precisávamos nos modificar, em vez de tentar modificar as pessoas e situações à nossa volta. Descobrimos novas oportunidades, auto-estima, auto-respeito, aceitamos a vontade de um Poder Superior em nossas vidas. Perdemos o nosso medo do desconhecido. Somos libertados. Respostas são oferecidas e problemas solucionados. Se você quer o que nós temos a oferecer e está disposto a fazer um esforço para obtê-lo, então está preparado para dar certos passos. Os doze passos são os princípios que possibilitam nossa recuperação. Isto parece ser uma grande tarefa e não podemos fazer tudo de uma só vez. Não nos tornamos adictos num dia, lembre-se – vá com calma. Mais do que qualquer outra coisa, uma atitude de indiferença ou intolerância com os princípios irá derrotar nossa recuperação. Três destes princípios são indispensáveis: honestidade, mente aberta e boa vontade. A única maneira de não voltar à adicção ativa é não usar aquela primeira droga. Você sabe “uma é demais e mil não bastam”. Alcoólicos Anônimos coloca grande ênfase nisto, pois sabemos que, quando usamos qualquer droga, ou substituímos uma pela outra, liberamos nossa adicção novamente.

terça-feira, 14 de março de 2017

A importância da família na recuperação

    No início dos anos 90, o crack chegava com virulência atacando nossa juventude e matando-os sem dó. A nova droga que parece ter vindo para ficar, colecionava, como ocorre ainda hoje, centenas de adolescentes, os quais sem conhecerem o altíssimo poder das “pedras”, de gerar rápida e grave dependência, caiam vitimados, pela promessa do falso prazer. Caiam em um submundo repleto de mortes, prisões, suicídios, prostituição. Se tonavam jovens castigados por uma ansiedade fora de controle, com movimentos corporais agitados, olhos assustadiços e expressivamente magros, em alguns casos, ficavam com os ossos da face em evidência.                   Negavam-se a receber ajuda, quer de centros de tratamento, profissionais da área ou grupos de ajuda mútua. Seu fim invariavelmente era o único caminho a que leva as drogas: a morte. A sociedade simplesmente os tratavam de marginais, drogados, maconheiros etc. e não se importava nem um pouco com o destino do adicto.
 Hoje, o usuário de drogas é visto como um enfermo, portanto, necessitado de tratamento médico, psicológico e espiritual especializados, por pior que seja seu comportamento sócio-familiar. A nova lei penal não mais impõe pena de prisão ao dependente químico, e sim o obriga ao tratamento, além de prestar serviços sociais à comunidade.
 Os avanços da neurociência permitem identificar problemas bioquímicos que contribuem e muito, para levar o indivíduo portador de imperceptíveis transtornos neurológicos à severa dependência do álcool (droga lícita) sem terem esses dependentes, nenhuma doença mental. No máximo, são portadores de “desconforto mental” que os leva ao uso, para “acalmar” ou “se sentirem bem”. Alguns psicanalistas chegam a afirmar que “vivemos uma cultura tóxica”, porque nos inclinamos à dependência de alguma coisa para atenuar nossas ansiedades, que poderá ser a comida, álcool, tabaco, sexo, medicamentos e agora a internet etc.
 Outro ponto relevante é a educação, no sentido de transmitir valores éticos-morais. Tradicionalmente, a família e as religiões cuidavam de educar as crianças e adolescentes. Hoje os pais têm transferido essa tarefa para a escola, que na verdade, tem o papel de intelectualizar o aluno. Esquecendo assim, de que o lar é o melhor educandário, porque sua lições são vivas e impressionáveis, carregadas de emoção e força. Os modelos devem ser silenciosos, falando mais pelos exemplos, pelas alegrias de viver, pelos valores comprovados, ao invés das palavras sonoras, cujas práticas demonstram o contrário. Segundo o último relatório anual da ONU, o consumo de drogas ilícitas no Brasil estabilizou, com ligeira redução da maconha. Todavia, o consumo de bebidas alcoólicas registra crescimento.
 Pesquisas apontam que 12,5% dos adolescentes matriculados nas escolas públicas bebem com frequência, o que significa “um em cada cinco alunos” faz uso do álcool. Esses indicadores revelam ainda que, em relação ao álcool e ao tabaco, as meninas superam os meninos no seu uso. Quanto à mudança dessa cultura suicida, o processo histórico nos indica que as alterações sócio-culturais costumam ocorrer somente depois de espalhar dores cruéis no organismo social. O toxicômano não se importa em se livrar do desejo de usar drogas, ele deseja apenas “fazer calar a sua dor”. Tanto o usuário eventual, como o dependente químico, sente na própria carne, o quanto as drogas são perigosas, mas está enredado num processo psicótico e obsessivo. O dependente químico desenvolve uma relação psicótica com os entorpecentes, ao deixar que as drogas se transformem no centro de suas preocupações. Por outro lado, o “tempo” do usuário é diferente do nosso, pois está “contaminado de velocidade” e porque perdeu a capacidade de esperar. Paradoxalmente, não tem capacidade de agir e apenas é levado pelas circunstâncias interiores e exteriores comparando-se a um zumbi. Os níveis de ansiedade são tão altos que vive a cada dia, como se fosse o último. Movidos pela “hipnose” das drogas, o dependente químico fica furioso quando os pais se negam a lhe dar dinheiro para a compra das drogas. Quando, então, é capaz de “removê-los” da frente, como se fossem meros obstáculos ao seu insano prazer, podendo feri-los ou mesmo matá-los.
  A vontade de ajudar um adicto a sair da situação degradante na qual se encontra, é enorme por parte de algumas pessoas, bem-intencionadas. Porém, é necessário algumas cautelas. Posto que é alguém que está sempre buscando comover as pessoas, para tentar facilitar o uso de drogas. Na maioria dos casos, o dependente químico procura ajuda, para se aperfeiçoar em sua droga adição e muitos acreditam que podem descobrir um jeitinho de usar drogas sem pagar o preço das sequelas físicas, psicológicas, mentais, morais e sociais. Desse modo, em razão da complexidade do problema, o seu enfrentamento não admite amadorismos. Exige um somatório de paciência e amor, estudos sobre a personalidade humana e estrutura psicológica do adicto, sobretudo cautela e energia, para não se deixar fazer parte do jogo manipulador, tão próprio dessa enfermidade. 
   Uma das maiores causa do uso de drogas atualmente é o egoísmo. Ele se traduz numa conduta humana, capaz de lançar a maior onda de indiferença sobre as pessoas e por isso se isolam, nos campos da competitividade, gerando medo uns dos outros. Esse isolamento impõe severa solidão, às vezes, começa dentro do próprio lar, onde vivemos acossados para atender às necessidades que nós criamos. Demoramos a perceber que nossos filhos têm sentimentos próprios e que não são projeções de nós mesmos. O silêncio prolongado, longas horas de internet, a porta do quarto fechada, a ciranda de festas ruidosas, “falam” dessa solidão, não de pessoas, mas de afeto e diálogo. Por isso, cabe aos pais adentrar no mundo interno do filho, para sentar no chão de sua intimidade e ali conversar com ele, para tentar descobrir as dores da sua alma. O egoísmo também está presente no adicto ao eleger o caminho das drogas. Para busca de um prazer, ignora os afetos mais caros, rompendo seus vínculos familiares e destroi-se tudo pela tentativa de fazer calar seus conflitos. Somente mais tarde vem a descobrir que perdeu a liberdade. Por certo não podemos perder de vista que se a dependência tem por base os conflitos emocionais, outros fatores não menos relevantes devem ser considerados como os defeitos de caráter (abordados nas literaturas de Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos).
  A importância da família na formação do ser é indiscutível. Não se vence a dependência de drogas sem sua efetiva e ativa participação.
  Quando um de seus membros cai na dependência química, é sinal que o grupo familiar está enfermo. Pelo que, a família precisa participar da terapia, pela descoberta de que alguém está usando drogas. Sendo comum a instalação de um “tribunal familiar” para a apuração dos culpados e a condenação de quem caiu. O que o usuário menos precisa é de reprovação, posto que é portador de baixa-estima.
  A compreensão dos pais e outros familiares, lhe surgirá como grande alívio e estímulo para “aceitar” o tratamento. Tendo em vista que a primeira reação do dependente químico é a de não reconhecer o seu problema, valendo-se dos chavões “não sou viciado, paro quando quero”.     A melhor atitude da família é não se escandalizar e adotar a postura de quem vai efetivamente ajudá-lo. Somente estabelecendo um clima de confiança se poderá saber até onde e com quem o dependente químico está envolvido. Esta é a maneira mais adequada de se saber qual droga está sendo consumida, o grau de sua dependência e outros riscos. A espiritualidade, de forma ecumênica e voltada ao evangelho, é capaz de desenvolver um elo emocional com as lições e seu conteúdo ético-moral. Pouco a pouco, o dependente químico sente o despertar de uma nova consciência, que o leva para uma realidade até então desconhecida.
  As drogas fazem uma “blindagem emocional” do ser, como se congelassem seus sentimentos e a mensagem do Evangelho pulveriza esse bloqueio, abrindo novas e ricas possibilidades para proporcionar uma vida sem drogas, de onde poderá emergir o homem integral. Abandonar o consumo de drogas implica na “transformação cultural”, significa também uma "reforma íntima". O processo de reabilitação não é simples e nem breve. Na verdade, é marcado por muitas fases, escritas com dolorosas lágrimas e rudes sofrimentos. Razão pela qual, a prevenção é o melhor caminho. A prevenção na família equivaleria a preencher os seus vazios emocionais, que muitas vezes não são detectados a tempo. Evitar o consumo, ainda que eventual, de bebidas alcoólicas em casa, porque não sabemos se um membro de nossa família traz as tendências para esse vício. “Faça o que eu digo e não o que faço” é o pior dos exemplos. Acompanhar de perto os pensamentos e atitudes de um membro da família, pode ajudar a detectar a adicção antes mesmo que ele venha a ocorrer.
  É extremamente necessário garantir-se um ambiente saudável à família, onde os filhos têm a liberdade de expressarem o que sentem, para que sejam melhor compreendidos.