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sábado, 3 de novembro de 2007

História de Bill

UM POUCO DA HISTÓRIA DO CO-FUNDADOR DE (A A).

RELATO DE BILL:

Durante vários anos consecutivos a fortuna me sorriu, prodigalizando-me dinheiro e elogios. Havia atingido minha meta. Meu discernimento e minhas idéias foram aproveitadas por muitos, que ganharam milhões. Tudo fervia durante aquela grande safra da terceira década do século XX. A bebida vinha formando uma parte importante e festiva de minha vida. Nos salões de festas eu elevava a voz com petulância. Todos gastavam aos milhares e só falavam em milhões. Podiam mofar-se os sensatos. Para o diabo com eles! Nesse torvelinho, tive oportunidade de fazer uma plêiade de amigos superficiais.
Cada vez mais, minhas bebedeiras assumiam sérias proporções, prolongando-se de um dia para outro e a quase todas as noites. Omitia as súplicas e conselhos dos meus amigos, dos quais fugia, e acabei, convertendo-me num lobo solitário. Houve muitas cenas tristes em meu suntuoso apartamento. Não existiu realmente problema de infidelidade porque, além de minha natural lealdade para com minha esposa, minhas inúmeras bebedeiras contribuíram para manter-me imune a esse tipo de tentações.
Em 1929 contraí a febre do golfe. Apressei-me em sair para o campo com minha esposa, que me aplaudia enquanto eu desafiava a Walter Hagen. A bebida alcançava-me mais rapidamente do que eu a Walter. Pelas manhãs, comecei a sentir-me nervoso. O golfe proporcionava-me ocasiões para beber todos os dias e todas as noites. Era divertido vagar pelo campo, que tanto assombro me infundia quando eu era garoto. Adquiri o impecável bronzeado que é apanágio dos ricos. O banqueiro local, com divertido ceticismo, me via chegar à sua caixa num constante trocar de cheques.
Subitamente, em outubro de 1929, o inferno assentou praça na bolsa de Nova York. Pensativo e cabisbaixo, num desses dias de purgatório, dirigi-me de um bar de hotel para o escritório de um corretor da bolsa. Eram oito horas da noite, cinco horas após o encerramento do mercado. A máquina de valores replicava ainda. Atônito, fiquei contemplando um lançamento com a inscrição XYZ (-32). Esses valores estavam a (+52) pela manhã. Havia-me arruinado, e comigo arruinaram-se também os meus amigos. Os jornais anunciavam que alguns indivíduos haviam-se atirado das janelas de Wall Street. Isso me parecia de mau gosto e eu jamais os imitaria. Regressei ao bar. Meus amigos haviam perdido vários milhões desde as 10 horas. E daí? Amanhã seria outro dia! enquanto tomava um copo de bebida, voltou a apoderar-se de mim aquela velha e forte determinação de vencer.
No dia seguinte telefonei a um amigo, em Montreal. Possuia bastante dinheiro e sugeriu, como melhor solução, a minha ida para o Canadá.
Na primavera seguinte já vivíamos com o bem-estar costumeiro. Sentia-me como Napoleão quando regressou de Elba. Não! Santa Helena não havia sido feita para mim. Porém, voltei a entregar-me à bebida e o meu generoso amigo teve que me deixar partir. Desta vez ficamos arruinados.
Fomos viver com os pais de minha esposa. Consegui uma colocação e a perdi em conseqüência de uma alteração com o chofer de taxi. Misericórdia, ninguém suspeitava que eu ficaria desempregado durante cinco anos, nos quais raramente estaria sóbrio. Minha esposa começou a trabalhar numa loja de onde chegava exausta, para encontrar-me bêbado, converti-me num freqüentador pouco agradável dos escritórios de corretores.
A bebida, para mim, deixou de ser um luxo para converter-se numa necessidade. Como coisa rotineira, bebia duas e até três garrafas de genebra barata por dia. algumas vezes, um ou outro pequeno negócio proporcionava-me alguns dólares, e então pagava as minhas dívidas nos bares e armazéns.
Esta situação perdurava e comecei a levantar-me todas as manhãs tremendo violentamente. Para poder tomar o café matinal, necessitava beber, antes, uma garrafa de genebra seguida de meia dúzia de garrafas de cerveja. Apesar deste estado de coisas, acreditava ainda poder controlar a situação, e tive períodos de abstenção durante os quais se renovavam as esperanças de minha esposa.
Gradualmente, as coisas foram de mal a pior. A casa foi arrematada por um credor hipotecário; veio a morte de minha sogra, seguindo-se as doenças de minha esposa e de meu pai.
Nessa ocasião apareceu-me a oportunidade de empreender um negócio muito promissor. As ações da bolsa estavam sofrendo a baixa de 1932; conforme averiguei, iam subir, e dessa forma consegui o interesse de um grupo de pessoas em sua compra, sendo que eu participaria fartamente dos lucros advindos. Porém, logo tomei uma pródiga bebedeira, e a oportunidade se esfumou.
Veio o despertar. Compreendi que tudo isso precisava terminar e que eu não podia tomar nem sequer um copo de bebida mais. Minha derrota era completa. Além disso, havia feito uma infinidade de promessas vãs; porém com grande alegria, minha esposa pôde observar que desta vez eu falava muito sério. E essa era a verdade.
Pouco depois disso, voltei para casa embriagado. Não havia ocorrido nenhuma discórdia. Que havia sido feito de minha grande resolução? Sinceramente, eu não sabia. Nem sequer me havia passado pela mente lutar. Tropecei com alguém que me ofereceu um “drink”, e o aceitei. Eu estava louco? Comecei a pensar que sim, pois tão espantosa ausência de senso comum não parecia indicar outra coisa.
Uma vez mais voltei àquela resolução, esforçando-me nessa ocasião para pô-la em prática. Transcorrido algum tempo, minha confiança começou a transformar-se numa segurança descomunal. Já podia rir-me dos bares e dos botequins. Agora, tinha o que necessitava. Certo dia, fui a um bar para fazer uma chamada telefônica, e em poucos minutos estava golpeando o balcão, perguntando-me como aquilo havia acontecido. A medida que o uísque me subia à cabeça, prometi a mim mesmo que isso não voltaria a acontecer, mas queria desfrutar esse momento e embriagar-me completamente. E assim o fiz.
O arrependimento, o horror e o desalento do dia seguinte são inesquecíveis, faltavam valor para a luta. Meu cérebro marchava desenfreado e tive uma terrível antevisão das calamidades que me aguardavam. Quase não me atrevia atravessar a rua, por temer um colapso e ser atropelado pelo veículo de algum madrugador, pois já despontava o dia. numa dessas tavernas que ficam abertas durante toda a noite, pude beber um dúzia de garrafas de cerveja. Meus nervos, descontrolados, finalmente se apaziguaram. Por um jornal da manhã, fiquei sabendo que o mercado financeiro tinha ido parar no inferno, novamente. E eu também. O mercado recuperar-se-ia, porém, eu, não. Agora não. Uma névoa mental me envolvia. A genebra resolveria isso: mais duas garrafas e eu mergulharia no vazio do esquecimento.
A mente e o corpo são mecanismos maravilhosos, pois durante dois anos os meus sobreviveram a essa agonia. Quando o terror e a alucinação se apoderavam de mim pelas manhãs, às vezes furtava dinheiro da raquítica bolsa de minha mulher. Outras vezes sentia vertigens ao ver uma janela aberta, ou ante o armário de remédios onde havia veneno, maldizendo a minha fraqueza. Procurando uma saída, minha mulher e eu enfatizamos a necessidade de repetidas viagens da cidade ao campo e do campo à cidade. Não tardou a chegar, no entanto, uma noite em que a minha tortura física e mental era tão demoníaca, que, no meu desespero, temi lançar-me pela janela com cortina e tudo. Para evitar tal impulso, levei o colchão para o andar inferior. Veio o médico. Veio o médico e administrou-me um forte calmante. No dia seguinte estava tomando genebra misturada com o calmante. Essa mistura quase me matou. As pessoas temiam que eu fosse enlouquecer. Esse era também o meu temor. Tornava-me tão inapetente quando bebia, que passei a não comer, e, assim, perdi 20 kg de peso.
Graças à cuidadosa intervenção de um cunhado médico e de minha mãe, fui recolhido a um hospital de fama nacional para a reabilitação mental e física dos alcoólatras. Com o chamado tratamento de beladona, meu cérebro se desanuviou. A hidroterapia e os exercícios ligeiros também foram de grande proveito para mim. Tive, sobretudo, a sorte de conhecer certo médico, o qual me explicou que, sendo eu certamente um egoísta e um tonto, não era menos certo estar doente, física e mentalmente.
Animou-me bastante saber que a vontade do alcoólico se debilita de maneira surpreendente quando se trata de combater o álcool, ainda que com freqüência se mantenha firme em outros aspectos. Isso explicava minha incrível conduta, apesar de meu desesperado desejo de deixar de beber. Conhecendo-me melhor agora, acalentei uma grande esperança. Por 3 ou 4 meses tudo correu bem. Ia à cidade com regularidade, e até cheguei a ganhar algum dinheiro. Seguramente era essa a solução: conhecer-me a mim mesmo.
Porém, não era, pois chegou o dia tão temido em que voltei a beber. A curva de minha decadência moral e física caiu repentinamente. Depois de algum tempo, voltei ao hospital. Parecia que tinha chegado ao fim. Informaram a minha cansada e desesperada esposa que tudo terminaria com um enfarte do coração, durante um ataque de “delirium tremens”, ou que dentro de um ano sofreria uma abnubilação do cérebro. Em breve ela teria que entregar-me à casa mortuária ou a um asilo de loucos.
E quanto a mim, nada tinha a dizer. Eu sabia tudo, e quase me alegrava. Foi um golpe rude que destroçou o meu orgulho. Eu, que tão bom conceito tinha de mim mesmo, das minhas habilidades e de minha capacidade para vencer obstáculos, no final via-me liquidado. Agora enterrar-me-ia na escuridão, unido à interminável caravana de bêbados que me havia precedido. Pensei em minha pobre esposa. Apesar de tudo, havíamos conseguido encontrar bastante felicidade. Quanto eu daria para recomeçar tudo! Porém, já era tarde.
Não existem palavras para descrever a minha desolação e desespero em meio a uma violenta crise de auto-compaixão que me cercava. Havia-me batido com meu inimigo mortal, e fôra vencido. O álcool era meu senhor.
Tremendo, saí do hospital convertido em uma ruína humana. O medo me manteve abstêmio por pouco tempo. Logo veio a insidiosa loucura pela primeira bebida, e no dia do armistício de 1934 incorri em um novo deslize. Todos se resignaram com a certeza de que eu teria de ser confinado em algum lugar, ou então, seguir tropeçando, até chegar a um fim miserável. Como tudo é escuro antes do amanhecer! Na realidade, esse foi o começo de minha última farra. Prontamente haveria de conhecer a felicidade, a paz e o prazer de ser útil, recolhendo-me, pouco a pouco, a um modo de vida cada vez mais maravilhoso.
Em fins de novembro, estava sentado na cozinha, bebendo. Com certa satisfação refleti que tinha escondido, por toda casa, bebida suficiente para aquela noite e para o dia seguinte. Minha esposa estava em seu trabalho. pensava, ainda em me atrever a esconder uma garrafa junto à cabeceira da cama. Eu iria necessitar dela antes do dia raiar.
O toque do telefone tirou-me dessa maquinação. Reconheci em seguida a jubilosa voz de um velho amigo de escola, que me perguntava se poderia visitar-me. Ele estava sóbrio. Como bem podia recordar, há anos que não vinha a Nova York nesse estado. Fiquei assombrado. Circulavam rumores de que havia sido internado em um hospital para dependentes alcoólicos. Desejei saber de que forma pudera escapar. Como ele vinha cear conosco, eu poderia beber em sua companhia sem disfarce. Sem considerar o bem-estar de meu amigo, só pensei em reconquistar o espírito festivo de outros dias. Recordava que certa vez, fretamos um avião para completarmos uma farra. Sua chegada era, para mim, um oásis no meio do pesaroso deserto de futilidade em que me encontrava. Era isso mesmo: um oásis! Os bêbados são assim...
Abriu-se a porta e ali estava ele, com o seu semblante fresco e radiante. Havia uma expressão rara em seus olhos. Era inexplicavelmente diferente. Que havia acontecido?
Pus sobre a mesa um copo e lhe ofereci. Ele recusou. Decepcionado, porém curioso, quis averiguar o que se havia metido na moleira do meu amigo. Ele não era o mesmo.
“vamos, vamos”, disse-lhe. “diga-me do que se trata”.
Olhou-me fixamente. E com simplicidade, embora sorrindo, disse-me: “tenho religião”.
Fiquei com a boca aberta. De forma que era isso o que havia acontecido?! No verão passado um alcoólatra fanático e agora, como eu supunha, um fanatizado pela religião. Era isso o que seu olhar cintilante revelava. Sim, não havia dúvidas: meu velho companheiro estava alucinado! Bem, deixemo-lo falar. A minha genebra duraria mais tempo que o seu sermão.
Porém, não houve sermão. Em ordenada exposição de fatos, relatou-me como duas pessoas haviam comparecido à corte de justiça para persuadir o juiz a suspender seu confinamento. Expuseram ao juiz uma simples idéia religiosa e um programa prático de ação. Aquilo havia acontecido dois meses antes e o resultado era evidente. Funcionava!
Tinha vindo para trazer-me o benefício de sua experiência – desde que eu estivesse disposto a aproveitá-la. Aquilo produziu-me um grande abalo, porém, interessou-me. Tinha que me interessar, pois achava-me desesperado.
Falou-me horas a fio. As recordações da minha infância desfilaram pela minha mente. Parecia estar ouvindo a voz do pregador, na paz daqueles domingos de minha juventude; lembrei-me daquela promessa de temperança, que nunca cumpri; recordava o menosprezo da congregação, por seu comportamento, e a tenaz insistência com que garantia haver música nas esferas celestes; recordava também, da maneira veemente como divergia do parecer do pastor, quanto ao modo de adorar a Deus e do arrojo com que falava dessas coisas, livre de todo o temor, pouco antes de morrer. Todas essas recordações surgiram diante de mim, do fundo do passado, deixando uma grande secura em minha boca.
Voltou à minha memória o dia em que estive na velha catedral de Winchester, durante a guerra.
Sempre havia acreditado em um Poder Superior a mim mesmo. Com freqüência punha-me a refletir sobre essas coisas. Eu não era ateu. Realmente, poucas pessoas o são, posto que isso implicava numa fé cega, na proposição de que o universo teve sua origem em uma cifra e vai se movendo ao sabor da brisa. Intelectuais dignos de maior apreço, como os químicos, os astrônomos e ainda os evolucionistas, sugeriam-me vastas leis e forças em ação. Apesar das indicações em contrário, tinha pouca dúvida de que por trás disso tudo deixaria de haver um desígnio e tudo tivera seu ritmo. Como era dado conceber uma lei, tão vasta e imutável, sem uma inteligência que a plasmasse? Sinceramente teria de crer em um espírito do universo que não conhecia tempo nem limite. Porém, somente até aí havia podido chegar.
A partir desse ponto despedia-me de todos os pastores e religiões do mundo. Quando falavam de um Deus que me era pessoal, todo amor e supra-humano em sua força e mando, tornava-me irascível e minha mente se fechava contra essa teoria.
Admitia a existência de Cristo como um grande homem, que não era seguido de maneira fiel pelos que o aclamavam. Sabia que eram excelentes seus ensinamentos morais, porém, havia adotado para mim aquelas partes que me pareciam convenientes e fáceis de praticar. Do resto, fiz caso omisso.
Repugnavam-me as guerras, os incêndios e as tramas que as religiões haviam engendrado. Honestamente, duvidava de que, postas na balança, as religiões houvessem trazido algum bem. A julgar pelo que havia visto na Europa e pelo que vi depois, o poder de Deus nos assuntos humanos era insignificante e a irmandade dos homens uma grotesca palhaçada. O demônio, aparentemente, era o mandarim do universo e, certamente, me havia agarrado muito bem.
Apesar de tudo, o amigo, que se tinha sentado à minha frente, fazia a declaração contundente de que Deus havia feito por ele o que ele não havia podido fazer por si mesmo. A vontade humana lhe havia faltado. Os médicos o haviam declarado incurável. A sociedade estava a ponto de confiná-lo. Como eu, havia admitido uma derrota completa. Logo, efetivamente, havia se levantado dentre os mortos, saído subitamente de um montão de escombros humanos e se elevado a um nível de vida que nunca havia conhecido.
Tinha esse poder se originado nele? Era óbvio que não. Não havia existido em sua pessoa nem mais nem menos poder do que havia em mim nesse momento, e em mim não havia poder algum
Aquilo me derrubou. Começava aperceber, depois de tudo, que as pessoas religiosas tinham razão. aqui, funcionava algo num coração humano que havia conseguido o impossível. Nesse mesmo momento fiz uma drástica revisão de minhas idéias sobre milagres. Nada importava do lúgubre passado. E proclamava boas notícias.
Vi que meu amigo estava mais reajustado internamente. Pisava sobre um novo terreno, onde se agarravam fortemente suas raízes.
Apesar do exemplo vivo de meu amigo, ainda restavam em mim os vestígios dos velhos preconceitos. A palavra Deus ainda me causava certa antipatia, que se intensificava quando diziam que podia existir um Deus pessoal para mim. Não gostava da idéia. Podia aceitar tais concepções como a de uma inteligência criadora, uma mente universal ou um espírito da natureza; porém, resistia à idéia de que havia um czar de todos os céus, independentemente de quão bondoso pudesse ser em seu império. Tenho deparado, desde então, com inúmeras pessoas que pensavam da mesma maneira.
Meu amigo, então, sugeriu o que me pareceu uma idéia original, ao perguntar-me: “Por que não optar pela tua própria concepção de Deus?”
Essa pergunta atingiu-me fortemente. Derreteu a montanha de gelo intelectual, à sombra da qual eu havia vivido durante muitos anos. Enfim, ergueria o rosto para o sol!
Era só dispor-me a crer em um Poder Superior a mim. Para começar aquilo bastava. Vi que, partindo desse ponto, poderia crescer. Sobre uma base de boa vontade, poderia construir aquilo que contemplava no meu amigo. Eu tentaria? É claro que sim!
Dessa maneira foi que me convenci de que Deus se ocupa do homem quando este, verdadeiramente, necessita Dele. Por fim, eu via, sentia e acreditava. As cataratas do orgulho e dos preconceitos caíram dos meus olhos. Um novo mundo estava diante de mim.
O verdadeiro significado da sensação que experimentei na catedral fazia-se presente repentinamente. Por breves momentos havia necessitado de Deus. havia sentido o humilde desejo de Tê-lo comigo e Ele havia vindo a mim. Mas logo se esfumou a sensação de Sua presença com o clamor das coisas mundanas, especialmente as que ferviam dentro de mim. Quão cego havia sido!
No hospital separaram-me do álcool pela última vez. Acreditei ser prudente submeter-me a tratamento pois tinha sintomas de “delirium tremens”.
Ali me recomendei humildemente a Deus, tal como então o concebia, pedindo-lhe que fizesse de mim, o que melhor lhe aprouvesse. Sem reserva alguma, submeti-me à sua custódia e direção. Pela primeira vez admiti que não era nada por mim, que sem ele estava perdido. Sem auto-compaixão, encarei meus pecados e propus-me cooperar para que o meu novo amigo me livrasse deles. Desde então, não tenho tomado uma só gota de álcool.
O amigo de aulas visitava-me e contei-lhe todos os meus problemas e debilidades. Fizemos uma lista das pessoas q2 eu havia ofendido ou das quais tinha ressentimentos. Expressei meu sincero desejo de aproximar-me dessas pessoas, para reconhecer os meus erros. Era mister que corrigisse esses pontos enquanto fosse possível.
Tinha de por à prova o meu modo de pensar, com o conhecimento intrínseco que agora tinha de Deus. o sentido comum passaria a ser pouco comum. Quando me assaltasse alguma dúvida, devia concentrar-me e pedir força e orientação para encarar meus problemas da forma que Ele quisesse. Nunca deveria orar para meu benefício, a menos que se tratasse de pedir ajuda para auxiliar outras pessoas. Somente assim poderia esperar receber, e, ainda, em grande escala.
Meu amigo assegurou-me que, uma vez feito isso, entraria em uma nova relação com meu criador. Que esse modo de vida me proporcionaria os elementos com que resolveria todos os meus problemas. A firme crença no poder de Deus, acrescida de uma grande dose de boa vontade, honestidade e humildade, eram os requisitos essenciais para a manutenção de minha nova norma de vida.
Simples e, ao mesmo tempo, nada fácil. Tinha de pagar um preço. Significava a destruição total do meu egoísmo. Deveria entregar tudo ao pai da luz, que preside a todos nós.
Estas resoluções eram revolucionárias e drásticas, porém, no mesmo instante em que as aceitei, produziram em mim um efeito eletrizante. Experimentei uma extraordinária sensação de alívio, triunfo, seguida de uma paz e serenidade que jamais havia sentido. Tinha absoluta confiança. Sentia-me elevado, como se o vento refrescante e puro do cume de uma montanha me assoprasse. Deus se acerca da maioria dos homens aos poucos, mas seu impacto em mim foi repentino e profundo.
Por um momento senti-me alarmado e chamei o médico para que me dissesse se eu estava louco, ou não. Escutou-me, maravilhado. Sacudiu, for fim, a cabeça e comentou: “alguma coisa lhe aconteceu que não sei explicar. De qualquer maneira, agarre-se bem a ela. Qualquer coisa é melhor do que o estado em que você se encontrava.” Agora, o bom médico vê muitos homens que passam por experiências idênticas. Ele sabe que sem reais.
Enquanto permanecia no leito do hospital, assaltavam-me o pensamento de que existiam milhares de alcoólicos desesperados que se alegrariam de poder ter o que me havia sido dado tão livremente. Talvez, pudessem ajudar alguns desses seres, e eles, por sua vez, pudessem trabalhar com outros.
Meu amigo havia dado grande ênfase ao colocar em evidência estes princípios em todos os meus atos. Particularmente era indispensável que me entregasse à tarefa de recuperação de outros, da maneira como Ele se havia proposto a fazer comigo. A fé sem trabalho é morta, disse Ele. Essa é uma aterradora verdade para o alcoólico! Pois, se um alcoólico deixa de aperfeiçoar e engrandecer a sua vida espiritual por meio do trabalho e do sacrifício próprio em benefício dos demais, não poderá vencer as provas e os momentos de fraqueza que, seguramente, o aguardam. Se não trabalhasse, certamente voltaria a beber, e se bebesse, seguramente morreria. Então, a fé estaria realmente morta. Para nós, não existe alternativa.
Minha esposa e eu nos entregamos, com entusiasmo, à idéia de ajudar alcoólatras a solucionar seus problemas. Foi uma sorte, porque meus antigos associados de negócios permaneceram descrentes por um ano e meio, período em que me apareceu muito pouco trabalho. não me sentia muito bem naquela época, pois os ressentimentos e as crises azedavam meu espírito. isto quase me levava, às vezes, a beber, porém logo me convenci de que quando as outras medidas falhassem, o trabalho com outro alcoólatra salvaria o meu dia. muitas vezes voltei ao hospital desesperado. Ao falar com algum alcoólatra, sentia-me incrivelmente revitalizado. é um programa de vida que funciona nos momentos difíceis.
Começamos a fazer muitos amigos íntimos e uma irmandade tem crescido entre nós, e da qual é maravilhoso fazer parte. Realmente sentimos a alegria de viver, mesmo nos momentos mais difíceis. Tenho visto centenas de famílias em marcha pelo caminho que, de fato, conduz ao êxito; tenho visto reajustadas as situações domésticas mais difíceis e desaparecerem rancores de todas as espécies. Tenho visto homens, que saíram dos asilos, voltarem a ocupar postos de vital importância no seio de suas comunidades. Diversos homens de negócio têm readquirido, igualmente, as suas posições. Não existe quase nenhuma forma de problema ou miséria que não tenha sido superada entre nós. Numa só cidade do oeste, e em seus arredores, existem milhares de pessoas como nós. Habilitamo-nos a nos reunir com bastante freqüência, de maneira que os recém-chegados possam achar, a qualquer momento, o ambiente que procuram. Nestas reuniões sem cerimônias, freqüentemente se encontram de 50 a 200 pessoas. E cada dia vamos crescendo mais em número e força.
Um bêbado apresenta um péssimo aspecto. Nossas lutas com eles são extenuantes, às vezes cômicas e as vezes trágicas. Um infeliz suicidou-se em minha casa. Não pôde ou não quis ver o nosso modo de vida.
Existe, no entanto, grande felicidade em tudo isso. Suponho que alguns se chocariam ante nossa aparente superficialidade. Porém, precisamente sob ela acha-se uma irremediável sinceridade. A fé precisa estar em ação durante 24 horas do dia dentro de nós e através de nós, ou morreremos.
A maioria de nós sente que não precisa mais procurar a utópica solução. Já a temos conosco, aqui e agora. E cada dia que passa, aquela conversa simples que tive com meu amigo, na cozinha de minha casa, se multiplica e se expande em um crescente círculo de paz na Terra e boa vontade entre os homens.



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