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segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A Felicidade

DEPOIMENTO SOBRE A FELICIDADE.

Na visão de um Alcoólico Anônimo.
(por questões éticas, não é citado seu nome).

A felicidade:

Para aplicar o procedimento de Alcoólicos Anônimos à reconstrução de uma vida estilhaçada, tentei primeiro recordar a felicidade que perseguia nos velhos tempos. Neste caso a felicidade, quase sempre, foi equacionada à alegria.
Buscava na bebida a euforia, a libertação até mesmo do mais ligeiro vestígio de responsabilidade. Queria isolamento contra a urgente mudança do mundo ao meu redor, um leito macio numa nuvem lânguida. Durante fugazes momentos e pouco antes da cortina do esquecimento cair, me deixava levar para aquele estado de ilusões. Convite: “venha para Alcoólicos Anônimos. Nós ajudaremos a manter a sobriedade e você encontrará a felicidade real”.
A sobriedade era real, subitamente, o mundo também era um lugar agressivo e impiedoso que nunca havia encarado totalmente antes. Onde estava a perseguida felicidade?
Filósofo antigo: “A felicidade não é algo que experimento; é algo que recordo”. Mesmo assim, correndo o risco de soar fora de moda, digo que: “estou muito feliz”. Deixe-me acrescentar: nada daquilo que hoje possuo veio fácil. Para mim foi e é uma parada dura. Abandonar as prerrogativas da infantilidade crônica nunca é muito fácil. Mas no inicio do jogo, preciso de definições.
“Serenidade” uma palavra que usei a parti do momento em que me arrastava para a primeira reunião de Alcoólicos Anônimos, era desde o início um conceito ilusório. Parecia significar qualquer coisa – imunização a prova de obstáculos, uma bênção completamente garantida para me habilitar a não perder a coragem quando as coisas não saem como quero. Ouvi a oração da serenidade entoada como um sortilégio para vencer o fascínio da tentação, como uma varinha mágica que afastasse tudo que fosse desagradável. A minha própria definição evoluiu para algo mais ou menos assim.
Parece-me que a maior parte das angústias e distúrbios da vida das pessoas deriva de uma persistência teimosa demais em tentar resolver problemas insolúveis. É por essa razão que a filosofia contida na oração da serenidade é uma das diretrizes mais importantes que encontrei em Alcoólicos Anônimos.
Aceitar as coisas que não se pode modificar. Tão simples! Se o problema não puder ser resolvido hoje, deixe-o para lá. Admito que isso nem sempre é fácil; exige autodisciplina, uma capacidade raramente encontrada nos alcoólicos recém sóbrios.
Por outro lado, os problemas que podem ser resolvidos proporcionam uma ida realmente excitante. O desafio diário de se atacar os conflitos encontrados desde a aurora até o escurecer, e dominá-los, é estimulante.
A ultima linha da oração da serenidade contém o golpe mais duro: A sabedoria para distinguir entre as situações solúveis e insolúveis, como alguém que suspeitava muito da própria sabedoria (desde que sóbrio) descobri que a substituição da palavra “sabedoria” por “honestidade” me dava a pista para a resposta que procurava.
O segundo principio da oração da serenidade é visto muito por alto. Fico constantemente maravilhado com o número dos chamados obstáculos que superei, depois de observá-los atentamente e unir quaisquer parcos recursos que possuísse, pegando então as ferramentas.
Conseqüentemente a serenidade é para mim a ausência de conflitos insolúveis. Complete a mim mesmo, determinar primeiramente, depois de uma análise honesta, se posso enfrentar o problema, decidindo então se deve ser enfrentado, transferido para outro dia ou esquecido para sempre.
Posso estabelecer metas com horizontes realísticos se mantiver o reconhecimento honesto das minhas limitações. Vencer as batalhas diárias, envolvidas na consecução dessas metas é excitante. Essas são as emoções reais.
A casa que estou tentando construir será o trabalho de minhas próprias mãos, com todas as manchas de sangue e todas as equimoses do entusiasmo, embutidas no “faça-você-mesmo” e em nada aliviadas por algum talento real neste departamento.
Nunca conseguirei cultivar tomates do tamanho daqueles do meu vizinho, mas o gosto dos meus pequeninos tomates é melhor na minha mesa do que seria o gosto das maravilhas que ele consegue.
Pela primeira vez na vida, estou dando a um patrão um honesto aperto de mão e percebo o companheirismo e a satisfação de se trabalhar em equipe e de contribuir com minha pequena parcela para o sucesso do todo.
A única galeria que meus quadros irão adornar algum dia fica entre a minha sala de estar e o vestíbulo de entrada, mas aventurando-me em um campo novo é divertido e as coisas estão melhorando, ainda que eu seja o único que consiga enxergar a mudança.
Nosso orçamento escolar foi por água abaixo, mas tive pelo menos a satisfação de saber que lutamos para valer. Esperem até o próximo ano.
Quase não conheci a família que perdi nas bebedeiras. Minha atual esposa e filhos, dividendos diretos da sobriedade proporcionam-me a maior alegria. Nunca em minha vida, antes de Alcoólicos Anônimos, havia feito coisa alguma para alguém. E mesmo hoje mal consigo ficar quite, porque ainda recebo mais do que algum dia poderei dar.
Existe apenas uma coisa tão bela quanto o rosto de um garotinho de quatro anos, na hora de contar estórias antes de dormir: é o rosto de sua irmãzinha.
Assim a felicidade é a plenitude, a satisfação de saber que você fez o melhor que as suas limitações honestamente avaliadas permitiram em todas as fases da vida.
Felicidade é a gratidão pelo milagre que me concedeu outra oportunidade de levar uma vida que um dia abandonei.
Felicidade é crescer. É aprender a ser grato por todas as coisas que você realmente possui. A felicidade é tanto para ser experimentada quanto para ser recordada.

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