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LITERATURA DE ALCOÓLICOS E NARCÓTICOS ANÔNIMOS, OS DOZE PASSOS, REFLEXÕES, CLÍNICAS, COMUNIDADES, ESPIRITUALIDADE. ESPERO COM ESSAS MATÉRIAS, ESTAR COLABORANDO COM ALGUÉM, EM ALGUM LUGAR, EM ALGUM MOMENTO DE SUA VIDA !

domingo, 4 de novembro de 2007

Álcool (visto por um neurologista)

O ÁLCOOL, SEGUNDO UM NEUROLOGISTA

Uma droga que mata, principalmente quando não tem utilidade terapêutica, é uma espécie de veneno. Quando imaginamos qualquer tipo de veneno, sempre pensamos em algo nocivo do qual devemos nos afastar, ou na melhor das hipóteses, nos proteger.
O álcool possui essas propriedades. É uma droga sem utilidade terapêutica, capaz de provocar a morte, portanto poderia ser encarada como um veneno, no entanto, isso não acontece, pelo contrário, nem como droga é considerado por muitos. A que se deve tamanha deturpação dos fatos?
O álcool tem um valor social inquestionável, é considerado o “lubrificante” das relações sociais, produto sempre encontrado na grande maioria dos encontros lúdicos, festivos ou profissionais. Tem o papel de diminuir nossa inibição natural, facilitando as relações interpessoais, favorecendo aproximações de negócios, românticas, sentimentais ou simplesmente de adequação ao meio ambiente circunstancial. Além disso cumpre um papel econômico importante pois, sendo um produto de uso das massas, gera o interesse de diversas indústrias, que usando os nossos ídolos nacionais através dos diversos meios de comunicação, popularizam indiscriminadamente a droga, atingindo até mesmo as crianças; mesmo que os impostos coletados na sua comercialização cubram apenas uma fração das despesas com hospitais gerais e psiquiátricos e jamais consigam compensar o sofrimento humano causado a cada família de um desses bebedores sociais, que sutil e progressivamente transformara-se em alcoólicos.
É nesse ponto, que a dependência é instalada, que o álcool, o “veneno sutil” apresenta o seu paradoxo. Como qualquer outro tipo de veneno, a sua suspensão traz alívio; porém, o álcool aliou-se de tal forma ao organismo que esse não consegue mais funcionar adequadamente sem a sua presença. Quando o indivíduo deixa de ingeri-lo passa em curto espaço de tempo a apresentar um mal estar orgânico e psicológico que progride, em casos graves, a um quadro dramático conhecido por “delirium tremens”, onde se observam tremores pelo corpo todo, chegando até a convulsões tipo epilépticas, suores profusos, delírios e alucinações com insetos que lhe cercam ou invadem o corpo. Um pavor indescritível se apodera do indivíduo que tenta fugir ou se mutilar de forma agressiva, intempestiva e desorientada. O indivíduo está frente a frente com a morte.
Mas atentemos bem para o termo “retarda a morte”, pois não há salvação com o uso continuado do álcool. Simplesmente alivia esses sintomas dramáticos da abstinência enquanto continua o seu trabalho de alterar a fisiologia orgânica até chegar ao ponto do colapso inevitável.
Poderíamos então pensar que nossa preocupação deveria ficar restrita à situação acima, quando os efeitos do álcool são bastante evidentes. No entanto, nossa preocupação deve se voltar para a prevenção, para evitar que a doença se instale. Devemos entender que o álcool é uma droga letal, que cumpre um papel social entre as pessoas adultas, sadias, de forma circunstancial. Nunca transformar esse uso de circunstancial em habitual, pois assim começa a haver a transformação fisiológica do organismo. Mesmo que esse uso se restrinja a fins de semana. Uma forma de percebermos se o nosso organismo está sendo alterado pelo álcool, é procurar sentir o nosso estado de espírito quando temos oportunidade de usar o álcool e voluntariamente não o fazemos. Se isso traz desconforto psíquico (irritação, mau humor, inquietação) é um sinal de alerta que apenas a pessoa que sente pode avaliar (ou disfarçar, se ele quer aparentar normalidade, mostrando que o álcool não cumpre nenhum papel em sua vida).
Neste ponto da prevenção, a mudança corretiva dos hábitos depende exclusivamente da honestidade de cada um. O que podemos e devemos informar é sobre a estratégia que a doença usa para o domínio do corpo. Como o álcool tem uma preferência para agir em nível cerebral, onde existem bilhões de neurônios responsáveis por nossa percepção, processamento das informações recebidas e execução do comportamento desejado, ele vai alternando progressivamente a função dos diversos neurônios atingidos. Se eles individualmente passam a necessitar do álcool para executarem com mais “eficácia” suas funções, começam a interferir no processo cognitivo encontrando justificativas para o uso e negando qualquer argumento que ameace sua interrupção. Essa é a grande tática utilizada estrategicamente pelo álcool para minar nossa resistência e iniciar o processo de destruição orgânica. Portanto, a honestidade do indivíduo que usa o álcool habitualmente é fundamental para frustrar o desenvolvimento da doença. Somente ele é responsável por sua própria recuperação. a nós, que adquirimos esse conhecimento, cabe apenas o papel de atingir a consciência das pessoas na faixa de risco, confrontando suas defesas (negação, racionalização) com os prejuízos reais que começam a surgir, de forma solidária, compreensiva, sem cair no campo emocional, atacando impiedosamente com nossa razão a fragilidade de quem já se encontra doente ou no mínimo, já começou o processo.

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